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quarta-feira, 9 de março de 2011

CINCO DIAS PERDIDO NA SUÉCIA

Estou certo que muitos dos participantes no POM se identificam com algumas das angustias descritas pelo Manel de forma soberba, pelo que não resisti a recuperar agora este seu texto, apesar dele já ter uns aninhos.

Por Manuel Dias

O- Ringen 97, Vasterbotten, 21 a 25 de Julho

Demorei 6h 51m 24s para fazer os “cinco dias da Suécia”. Quase metade desse tempo andei literalmente perdido, mas foi uma festa. A começar pela cerimónia de abertura, onde desfilei com a bandeira nacional. A Rosário e eu éramos os únicos portugueses presentes; ela transportou a placa com o nome do país.

A dificuldade dos mapas escandinavos (do terreno, quero eu dizer) já se me apresentara na Finlândia, onde participei nas duas primeiras provas do FIN 5, mas foi na Suécia que me apercebi da exacta dimensão da «tragédia».

Caminhos, quase nem vê-los e, quando existiam, eram passados na perpendicular. Dos 47 pontos que tive de marcar (não contando os últimos, a preceder o balizado para a meta), 28 foram pedras. «Que bom», pensam vocês. «Que quebra – cabeças!», garanto-vos eu. Porque os mapas estão cheios de pedras e o terreno ainda mais. E há pedras que são apenas pedras, e pedras que são falésias, e pedras que são montes de pedras, e pedras que não sei o que são. Dá para perceber? Ainda bem que não dá. O melhor é irem lá ver. Se possível, com a mesma disposição com que eu fui: «Vim de férias», estou aqui para me divertir”.

Da temporada nacional do ano passado, deixei registadas na minha agenda 13 provas com tempos e distâncias. Andamento médio: 8,52/Km. Na Suécia: 15,48/Km. Não tenho espaço para explicar, peço que acreditem: foi uma curte!

A edição deste ano foi a menos participada desde 1977. Éramos 11 mil. O record continua a pertencer a 1985, com 23 mil.

A preparação de cada O-Ringen dura cinco anos. A organização do ano 2002 foi eleita do decorrer da prova deste ano: Vastergotland, Karsborg. Ao longo desse quinquénio são, a diferentes níveis de envolvimento, requisitados os serviços de 3500 pessoas. Nos dias da prova, o «staff» é de 900.
Na hora da verdade é quase impossível algo correr mal. Os concorrentes estavam distribuídos por 108 categorias (escalões e subescalões), com seis locais de partida, todos os dia. Junto de cada partida, funcionava uma mesa para os cartões de controlo dos retardatários. Nunca vi ninguém dirigir-se lá. Toda a gente sai na sua hora, inclusive no último dia em que há partidas cada 15 segundos.

A distância da concentração (chegada) ao local da partida variou entre 550 e 4500 metros. Sinalização inequívoca, abastecimentos de água, sacos para recolha de lixo, vários WC. Aconteceu-me chegar à partida duas horas antes de sair. Que espectáculo! Os vários tipos de aquecimento, gente que se reencontra, exercícios, concentração, nervosismo (pouco), os equipamentos, a última consulta ao programa de 200 páginas pendurado no tronco de um pinheiro, senta, levanta, limpa os óculos, confirma a hora no peitoral, um que sorri, outro que está sério. No meio de tanta gente, descobri que o Dragan (o amigo Jugoslavo) sai quatro minutos antes de mim é uma fonte de alegria, «boa sorte!», «boa sorte!».

Mas o festival a sério é na chegada. Um Woodstock sem «inconveniências». Centenas e centenas de bandeiras. Cor, agitação, relva, merendas, banquinhos, esteiras, bebidas isotónicas, pés ligados, caneleiras a meia haste, de pé, sentados, gritando junto ao funil, velhos, novos, bonitas, outras ainda mais bonitas. E , no meio desta babel, poder procurar uma sombra, deixar em fundo o bruá geral e mergulhar nos «Cuadernos da Patagónia» que o Hector trouxe da Argentina e fez o favor de me emprestar esta manhã.

Assistir à chegada do mítico Karl-Victor Ahokainen, com os seus 92 anos, e do campeoníssimo Jorgem Martensson, que fez a proeza de, ao cabo de cinco dias, levar apenas uma vantagem de 13 segundos sobre Lars Holmqvist.

- Alguém conhece outro desporto assim?

- Eu não conheço! Ao longo de cinco dias cumpriram mais de 37Km, correram sem se ver, escolheram os itinerários que lhes apeteceu, andaram o que as pernas e a cabeça deixaram e, no final, 13 segundos! Eh pá, eu quero andar nisto até aos 92 anos!

1 comentário:

  1. Delicioso texto do nosso Amigo Manuel Dias.
    Que boas recordações ao reler esta preciosidade dos "primórdios"...lol
    Grande abraço Manuel e parabéns blogger LS
    Ahhhh... Manuel vais andar nisto, pelo menos, até aos 102 anos e a competir no H40 ou H45!

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